Questionamentos x afirmativas
- Andréa Hagen
- Nov 23, 2019
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Assim como, imagino, muita gente, fiquei triste com a morte do apresentador Gugu Liberato. Mas o que mais me chocou foram dois fatos: o da notícia do trágico acidente e da morte - ainda não confirmada pela família - terem sido compartilhadas de forma tão rápida e irresponsável. E pelos comentários impensados de um grande número de pessoas.
Acho válido questionar, especialmente quando o assunto nos é desconhecido e queremos entender um pouco a respeito do que está sendo dito ou do acontecido. Pelo que entendi lendo artigos de fontes consideradas legítimas, o apresentador não estava decorando o telhado da casa com artigos natalinos mas sim, estava no sótão da casa trocando um filtro de ar condicionado. Pisou em falso e caiu, batendo a cabeça, de uma altura de 4 metros.
Aí surgem os comentários: de como uma pessoa tão conhecida e rica faz esse tipo de trabalho sozinho e não requere a assistência de uma companhia para realizar o serviço. E do porquê da demora do hospital/médicos darem a notícia do falecimento do apresentador.
Em muitos países, a disponibilidade para alguns tipos de serviço é limitada e/ou o custo é muito alto. Os profissionais estudam, praticam, se deslocam e o preço do trabalho reflete exatamente essa dedicação. Não é preciso viajar ou fazer um intercâmbio para tentar entender as razões dele ter realizado sozinho esse tipo de atividade. Basta ler livros, artigos, ver um clipe de música, assistir a uma série americada (ou de outras nacionalidades) para entender que nem todo mundo vive ou pensa como você. Aqui na Suíça - e nos Estados Unidos - e possivelmente em outros lugares - cada um corta a própria grama. Remenda sua roupa. Prepara a comida, limpa o chão, faz as compras, passa sua camisa. Até há quem realize esses tipos de serviço - mas a cobrança será feita por hora e é alternativa para poucos. As pessoas aprendem na escola (e na vida) a realizar alguns trabalhos, entre eles, os de carpintaria e costura. Gugu veio de uma família onde o pai era caminhoneiro e a mãe, vendedora de roupas. Imagino que cresceu tendo que fazer, por conta própria, muita coisa em casa. E mesmo que essa não seja a razão, era conhecido por ser uma pessoa reservada e simples. Por que exatamente não poderia, ele próprio, realizar a troca de um filtro?
No Brasil, o costume é que, sempre haverá alguém realizando alguns tipos de atividades que não estamos acostumados ou não temos treino suficiente para realizar: costurar uma roupa; fazer uma faxina; montar um móvel; podar o jardim; fazer a mão/pé; encher o tanque do carro...a lista é longa demais! Hoje vejo o luxo que tinha vivendo no Brasil, em ter muita coisa feita por terceiros, que hoje faço por conta própria. Sobre o hospital e profissionais não terem dado a notícia mais cedo. Há regras! Nesse caso especificamente, era necessário esperar 48 horas para a certificação de que não havia mais atividade cerebral. Só depois desse período seria fornecido à família o boletim médico. E só com a autorização da família a informação poderia ser compartilhada. Qual a pressa? Qual a urgência em ter e compartilhar esse tipo de notícia? Por quê tanta curiosidade em saber a causa da morte quando alguém divide que fulano ou ciclano os/nos deixou? Não basta apenas ser solidário e levar o seu abraço ou palavra de conforto?
Desculpem-me o desabafo. Mas é que realmente me tira do sério ver tanta gente passando dos limites. Tenhamos bom senso e mais respeito. Sejamos menos brutos e mais éticos.
Imagem: Pinterest
