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Sobre a vida e a morte

  • Writer: Andréa Hagen
    Andréa Hagen
  • May 31, 2018
  • 3 min read

Acho muito interessante a forma como os suíços lidam com o nascimento e a morte.

*Sobre o nascimento:

Os novos papais, orgulhosos, compartilham toda a sua alegria com amigos e familiares através de belíssimos cartões. Como pouca gente costuma visitar os recém-nascidos nos hospitais, respeitando a intimidade da família, essa poderá ser a primeira chance de ver a carinha do recém-nascido. E ter notícias de que tudo correu bem, do tamanho/peso e dia do nascimento do bebê.

Os cartões são uma espécie de aviso: agora já estamos em casa, nos adaptado bem e aguardamos a sua visita. O que fazer? Ligue, parabenize, envie um cartão ou compre um presente. Se forem amigos próximos, agende um dia com os papais para conhecer o/a pequeno/a.

Interessante observar que na frente de alguns prédios e casas são pendurados enfeites, placas e árvores com o nome e a data de nascimento da criança. Vê-se de longe que tem gente nova no pedaço! Considero uma tradição muito carinhosa.



*Sobre a morte:

Pouco tempo depois de ter chegado à Suíça o marido da minha cunhada morreu. Deixou a esposa e uma filha de 11 anos. A menina se despediu do pai com bilhetes e desenhos. A mulher, com uma bela apresentação sobre quem havia sido o marido.

Na Suíça é muito comum a cremação dos corpos. Não há regras sobre o tempo em que o morto deve ser velado e quando a urna será enterrada. Depois da confirmação da morte o corpo é mantido em espaços refrigerados - especialmente quando a morte se dá nos hospitais. O corpo é preparado pelos funcionários do local e você se despede de forma muito íntima do ente querido. Também não há uma "missa de sétimo dia". A missa é realizada após o enterro - que pode acontecer muitos dias depois da morte. É exatamente durante a missa que os parentes lembram-se, através de histórias lidas - uma espécie de "apresentação e recordação" - de como a pessoa viveu; o que fez; quais eram as suas maiores alegrias; suas músicas preferidas; para onde viajou; com o que trabalhou.

Após o culto, os familiares e amigos mais próximos são convidados para uma reunião, com direito a comida e bebida. Confesso que estranhei essa "festa". Precisei ir à três enterros para compreender o significado do encontro pós enterro e missa. "Quem fica" quer muito compartilhar o quanto foi bom ter tido aquela pessoa por perto. "Quem fica" quer muito ouvir o que os outros têm a dizer sobre a pessoa que se foi. Por algumas horas não se sente tão só. Por algumas horas consegue rir, relembrar e celebrar a vida do finado. "Quem fica" quer agradecer por ter tido a chance de ter feito parte da vida do falecido.

Outro fato interessante: muita gente envia dinheiro pelo correio para que flores sejam compradas e o túmulo fique enfeitado por muito tempo. Algumas famílias agradecem antecipadamente o carinho e pedem para que essa quantia seja transformada em doações e muitas vezes apontam a organização que gostariam que fosse beneficiada. Acho de uma grandeza sem tamanho. Ontem estivemos na cerimônia de despedida do tio e padrinho do Patrick (meu marido). O Paul se foi há duas semanas. A família reuniu apenas os mais próximos para o depósito da urna e os demais foram convidados para a missa, realizada uma hora depois. Foi muito emocionante ouvir que um dos acontecimentos mais importantes na vida do Paul nos incluía: ele esteve no nosso casamento religioso no Brasil, em 2002. Passou duas semanas com a gente, esteve em Belo Horizonte, Ouro Preto, na fazenda, Rio de Janeiro e Ilha Grande.


Vale lembrar que do lado de fora das igrejas e capelas sempre há uma caixa onde são deixados os cartões de pêsames. Seguimos para um restaurante próximo do cemitério e relembramos a vida do Paul por algumas horas. Rimos muito - ele era divertidíssimo - e algumas lágrimas foram derramadas também.


Não acho que se deve ficar comparando o que fazem aqui e como fazemos no Brasil. É diferente. Eles lidam de forma mais serena com o nascimento e com a morte. Nós, de forma muito mais emocional. As comemorações e despedidas são mais discretas por aqui. Somos mais exagerados. O que percebo é que sofremos muito mais agindo assim, especialmente no que diz respeito à morte. Tenho aprendido a ser mais reservada e controlada. Menos impulsiva e dramática. Sinto-me muito mais tranquila e acho bom que seja assim.



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